Psicólogo em Criciúma

Olá! Sou Alex Caitano, Psicólogo em Criciúma há mais de 10 anos, Psicanalista e escrevi esse texto pra falar um pouco sobre o amor.

O amor é tema de poemas, canções, cinema, artes…. porque amar é coisa que faz parte da vida (e não há vida sem o atravessamento do amor!). O amor é uma das experiências mais intensas. Ele atravessa histórias, culturas e também ocupa um lugar central na psicanálise. Para a perspectiva freudo-lacaniana, amar não significa apenas sentir carinho ou paixão. O amor revela algo profundo sobre a forma como cada sujeito lida com seus desejos, faltas, medos e expectativas. Em linguagem simples, a psicanálise entende que o amor fala muito menos sobre encontrar alguém perfeito e muito mais sobre aquilo que buscamos no outro para preencher algo que sentimos faltar em nós mesmos.

Para Sigmund Freud, o amor está ligado às primeiras experiências afetivas da infância. Desde o início da vida, o bebê depende de alguém que cuide dele, alimente, acolha e interprete suas necessidades. Esse vínculo inicial deixa marcas profundas. Ao longo da vida, muitas escolhas amorosas carregam, mesmo sem percebermos, traços dessas primeiras relações. Freud observou que frequentemente repetimos modos de amar, sofrer e desejar. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas entram repetidamente em relacionamentos parecidos, mesmo quando esses vínculos lhes causam sofrimento.

Freud também mostrou que o amor nunca é totalmente racional. Muitas vezes nos apaixonamos por aquilo que não compreendemos completamente. Há algo inconsciente em toda relação amorosa. O sujeito pode acreditar que escolheu alguém apenas pela aparência, personalidade ou afinidade, mas a psicanálise entende que existem fatores mais profundos atuando nessa escolha. O amor toca desejos antigos, fantasias e carências construídas nas experiências ao longo da história de cada pessoa.

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Outro ponto importante para a Psicanálise é que o amor está muito próximo da falta. O ser humano deseja justamente porque não é completo. Se nada faltasse, por que buscar o outro? O desejo nasce da ausência. Isso significa que amar também envolve lidar com frustrações, limites e diferenças. Nenhum relacionamento consegue satisfazer completamente todas as expectativas de alguém. Quando uma pessoa acredita que o parceiro deve preencher todos os vazios emocionais, surgem cobranças excessivas, dependência afetiva e sofrimento.

Leia mais: Amar é coisa que faz parte da vida

Mais tarde, Jacques Lacan aprofundou essas ideias e apresentou uma visão muito conhecida sobre o amor: “amar é dar o que não se tem”. Essa frase pode parecer estranha no início, mas ela traz uma reflexão importante. Lacan mostra que o amor não acontece porque alguém possui tudo. Pelo contrário, ele nasce justamente da incompletude humana. Quando alguém ama, oferece ao outro aquilo que também lhe falta: reconhecimento, desejo, cuidado, presença e sentido.

Para Lacan, o ser humano é marcado por uma falta estrutural. Existe sempre algo que não conseguimos preencher completamente. Por isso buscamos relações, palavras, experiências e vínculos. O amor surge como uma tentativa de construir uma ponte entre duas faltas. No entanto, essa tentativa nunca é perfeita. Nenhum casal consegue eliminar totalmente a solidão, a angústia ou as inseguranças humanas. Então por que amar? Por que, entre tantos motivos, ainda assim, o amor pode produzir encontros profundamente significativos.

A psicanálise também mostra que muitas vezes não amamos exatamente o outro como ele é, mas a imagem que construímos dele. Em muitos relacionamentos, o parceiro se torna uma espécie de espelho de desejos e fantasias. Isso ajuda a entender por que algumas paixões começam intensamente e depois mudam quando a convivência revela diferenças reais. O amor amadurece quando conseguimos reconhecer que o outro não é perfeito e, mesmo assim, escolhemos construir um vínculo possível.

No “mundo de hoje”, muitas pessoas vivem sob a pressão de ter-sentir “Aquele AMOR”. Existe uma busca constante por relações perfeitas, felicidade permanente e satisfação imediata. Redes sociais frequentemente apresentam imagens idealizadas dos relacionamentos, como se amar fosse viver sem conflitos. A psicanálise segue em outra direção. Ela reconhece que o conflito faz parte da experiência humana. Amar também inclui desencontros, dúvidas, inseguranças e momentos de distância. Aliás, pro amar alguém é preciso que haja uma separação entre o Um e o Outro, precisa haver dois pra que essa modalidade de amor possa acontecer.  Isso não significa fracasso. Significa apenas que o amor acontece entre sujeitos reais, marcados por histórias e limites (e precisa haver limites!).

O amor não elimina a individualidade. Muitas vezes as pessoas acreditam que amar significa se fundir completamente ao outro. Porém, quando alguém abandona totalmente a si próprio para viver apenas em função do outro, o relacionamento tende a adoecer. A psicanálise mostra que um vínculo saudável depende da possibilidade de cada sujeito continuar existindo, mantendo desejos, projetos e espaços próprios.

O amor também possui relação direta com o desejo. Para Lacan, o desejo humano nunca é totalmente satisfeito. Quando conseguimos algo, novos desejos surgem. Isso não é um defeito, mas parte da condição humana. Em um relacionamento, tentar controlar totalmente o desejo do outro pode gerar sofrimento e ciúme excessivo. O amor não oferece garantias absolutas. O amor é sempre uma aposta! Existe um certo mistério na relação entre duas pessoas. Reconhecer isso traz a possibilidade de aceitar que o outro não é uma parte de mim, está para além de mim, e sendo outro, posso amá-lo pelo que é e pelo que não é, pelo que tem e pelo que não tem.

Na clínica psicanalítica, falar sobre amor é falar sobre a própria história do sujeito. Cada pessoa ama a partir das marcas emocionais que carrega. Algumas têm medo do abandono, outras do excesso de proximidade. Algumas procuram proteção, outras reconhecimento. Há quem tema ser rejeitado e quem tema perder a liberdade. Por isso, compreender os próprios modos de amar pode ajudar a construir relações mais consistentes. Plantar o amor em solo fértil é promessa de boa colheita e aí pode entrar um bom trabalho de terapia.

A psicanálise não oferece fórmulas prontas para o amor. Ela não ensina técnicas para conquistar alguém nem promete relacionamentos perfeitos. Seu objetivo é ajudar o sujeito a compreender melhor seus desejos, repetições e sofrimentos. Amar, nessa perspectiva, não significa encontrar completude absoluta, mas construir uma relação possível entre duas pessoas imperfeitas.

Talvez uma das maiores contribuições da visão freudo-lacaniana seja justamente esta: o amor não é ausência de falta, mas a capacidade de criar laços apesar dela. Amar é reconhecer a vulnerabilidade humana e, ainda assim, desejar permanecer próximo do outro. É aceitar que nenhuma relação será totalmente perfeita, mas que mesmo assim ela pode produzir sentido, transformação e encontros verdadeiros.

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